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Sempre fomos Cyborgs

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Sempre fomos Cyborgs


  • DEFINIÇÕES CONTEMPORÂNEAS DE CULTURA

Em 1968, a revolução cultural eclodiu na China; a Índia fabricou sua bomba atômica e o Japão começou sua arrancada tecnológica. Em contrapartida, o misticismo e as filosofias orientais invadiram o Ocidente, chegando a influenciar sensivelmente disciplinas científicas como a psicologia experimental e a física teórica. Também a invasão soviética na Tcheco-eslováquia poria fim à divisão bipolar da guerra fria, abrindo um tempo de multiplicidade diplomática e política. O fenômeno da contracultura, mais que uma mera revolta jovem contra as instituições da sociedade civil ou de uma revolução de costumes, marcou o início de uma irreversível planetarização cultural ainda em curso e que, cada vez mais, é acentuada pela transnacionalização da mídia e dos meios de comunicação de massa. 68, que segundo se diz ‘é um ano que ainda não acabou’, ficou marcado pela imagem da primeira transmissão via satélite de TV em escala planetária – os Beatles cantando um rock que explica tudo: ‘All you need is Love’.

Desenvolvimento tecnológico cultural
Anos 70. O transistor – a miniaturização dos aparelhos de recepção (e a conseqüente complexificação pela mobilidade) – e a possibilidade das transmissões via satélite multiplicaram os serviços comunicacionais, desencadeando uma internacionalização cultural irreversível.
Anos 80. Já o microship está modificando nossas formas de memorização. A mudança no processo cognitivo social. A interatividade dialógica e a interface homem-máquina. A interatividade múltipla, muitos pontos de transmissão e de recepção não coincidentes.
Anos 90. A digitalização do mundo. A fibra ótica e as micro-ondas. A educação construtivista e o império do marketing – a comunicação como estratégia para solução de conflitos.

E mais: esta planetarização não se desenvolve centralizadamente pelo uso coercitivo da força nem pelas ‘necessidades econômicas da produção’, mas sim de uma forma aparentemente descentrada e consensual, sempre enfatizando o declínio da esfera pública frente a sociedade civil, seja na versão neo-liberal de um ‘ajuste’ econômico voluntário dos países periféricos sub-industrializados ao programa privatizador e ante-protecionista do FMI; ou (por outro lado, mas no mesmo sentido) no movimento das ONG’s em torno da ecologia e dos direitos humanos, que, herdeiras da desobediência civil das barricadas do desejo, sonham com uma nova Utopia: um Estado sem administração, um governo em que todos os serviços públicos seriam terceirizados e em que o executivo fosse um mero coordenador de concorrências.

Este estranho processo de homogeneização descentrada das culturas, este fenômeno bizarro da tribalização massificada – a que uns chamam de globalização e outros, pós-modernidade – só pode ser compreendido através de seus fragmentos, nos quais o global se reflete e se atomiza. É a realidade fractal que impõe um olhar ao mesmo tempo histórico e transdisciplinar.

A arquitetura, sempre invocada como um critério absoluto sobre a definição de movimentos e estilos culturais (barroco, romântico, moderno), pode ser de grande valia para entendermos esta faceta da Contracultura. A arquitetura pós-moderna não possui traços comuns, mas ao contrário, caracteriza-se pela mistura de estilos e de materiais, em uma bricolage funcional voltada para a satisfação do homem e para o equilíbrio ambiental. Assim, por exemplo, há bem pouco tempo não existia tecnologia específica para construir uma edificação grande em determinado local pantanoso (pois seguia-se padrões estéticos e técnicos limitados), hoje, cruzando-se diferentes técnicas de construação que existiram em outros locais e em outras épocas, é possível a definição de um projeto para qualquer espaço. Tomados esses critérios, não é difícil ver nas artes e no pensamento contemporâneos essa mesma possibilidade múltipla e plural. Se não podemos definir a pós-modernidade como um réquiem fúnebre da sociedade industrial, podemos ao menos delimitá-lo como um movimento cultural sem estilo ou estética definidos, marcada pela bricolage criativa, por esta universalidade estilhaçada em diferentes singularidades. É o sincrético sem síntese: o real como mosaico.

Em breve, automóveis e aviões serão monitorados pela Internet através de satélites de microondas e as telecomunicações do planeta serão reorganizados em redes. As novas formas de telefonia móvel que surgem, a partir do marketing interativo de ‘estratificação segmentada’ da cultura de massas de cada país, estão formando públicos internacionais especializados. E nesta conjuntura múltipla e globalizada, o intercâmbio em tempo real, o estudo operacional dos códigos das redes passará a desempenhar um papel central de mediação entre as culturas. Um novo saber, uma nova ética de caráter semiótico está surgindo não apenas como campo epistemológico entre a biologia, física e psicologia social, mas sobretudo como um saber contemporâneo reencantado: a arte/ciência geral do intercâmbio e das trocas e como uma prática de multiplicação e sincronia do tempo social.

Por outro lado, no que diz respeito à intencionalidade: “Nada há de novo sob o sol”. Antigamente, quando se estava com fome urrava-se; quando se queria uma fêmea, uiva-se; e quando se queria lutar contra um inimigo, rosnava-se. Hoje, quando se quer conquistar uma companheira, o homem escreve um poema; para se alimentar, redige um projeto; e, para fazer frente a um inimigo, publica uma matéria jornalística. De forma que o homem continua lutando com a fome, com as mulheres e com seus desafetos – ou com os três códigos primários de Levi Strauss.

Nas últimas décadas, as duas concepções de Cultura que estiveram em voga – a Holística (a cultura humana é a totalidade e esse todo é mais que a soma de suas partes nacionais e étnicas) e a Complexa (o todo cultural é, ao mesmo tempo, mais e menos que a soma de suas partes fractais) – pregavam o Reencantamento do Mundo, ou seja, que não basta desmistificar a cultura, é necessário resignificá-la em cada leitura. Somos parte da realidade cultural que estudamos como um sistema aberto e vivo. E para definir este período de reencantamento cultural, que uns chamam globalização e outros, pós-modernidade; prefiro a noção de Cibercultura.

No prelúdio do século, Benjamim distinguiu duas sensibilidades modernas: a do livro (da sofisticação formal das vanguardas, da concentração, do esforço cognitivo que ‘entra no discurso’) e a do cinema (da diversão distraída das massas, do espetáculo, do entretenimento em que ‘o discurso entra em seu receptor’). A cultura de massas era vista como um retorno ao audiovisual, ao universo anterior à comunicação inscrita. E essa mudança cognitiva já separava o mundo entre Apocalípticos e Integrados.

Hoje as perguntas que se colocam são as seguintes: o retorno a linguagem audiovisual através da informática está criando uma terceira sensibilidade? E a progressiva segmentação do mercado consumidor e a interatividade estão realmente democratizando a cultura de massas ou apenas instaurando novos modos de manipulação? O microcomputador é a síntese multimídia da cultura de massas com a cultura escrita? Houve uma transformação antropológica? Ou a internacionalização desencadeada através da comunicação de massas a nível planetário foi apenas um processo contínuo e gradativo de mudanças históricas quantitativas? Nunca fomos ‘diferentes’ das outras culturas ou nosso comportamento frente ao seu meio ambiente realmente se modificou radicalmente? Para entendermos as mudanças, a permanência e as diferentes concepções contemporâneas sobre Cultura será preciso antes compreender a Modernidade e o que podemos fazer para ultrapassá-la defintivamente.

  • REFORMAS NA MODERNIDADE

A ‘constituição’ é uma metáfora utilizada por Bruno Latour (1) para definir o pacto social e cognitivo da modernidade. A constituição moderna seria um duplo artifício de simulação entre a Natureza e a Sociedade, de forma que, através de uma série de falsas oposições, elas sejam diferenciadas. A este dispositivo, Latour denomina “o duplo artifício do laboratório (ou a força epistemológica do empírico e do experimental) e do leviatã (ou a força hermenêutica do pensamento por modelos e da intersubjetividade)”. No laboratório temos uma natureza transcendente, parcialmente construída mas que nos ultrapassa em sua totalidade, e uma sociedade imanente, sempre presente em todos os nossos atos triviais; no âmbito do pensamento social, ou na metáfora do leviatã, temos, ao contrário, uma natureza imanente aos homens e uma sociedade que é mais do que a soma de seus elementos.

Assim, ainda que sejamos nós que construímos laboratoriamente a natureza, ela funciona como se nós não a construíssemos, como ‘uma coisa-em-si’. Por outro lado, ainda que não sejamos nós que construímos a sociedade, ela funciona como se nós a construíssemos. A constituição moderna seria um duplo artifício de simulação entre a Natureza e a Sociedade, em que o poder científico representa apenas as coisas e o poder político representa somente os homens. Eis, portanto, a dupla potência da crítica moderna: uma ciência sem necessidades sociais & uma política objetiva e justa. A natureza explica o que é verdadeiro; a sociedade, o falso. Mas, na verdade, ao separar as relações políticas das científicas – mas sempre apoiando a razão sobre a força e a força sobre a razão – os modernos sempre tiveram duas cartas sob as mangas: uma natureza selvagem e inútil (sem sociedade) e uma sociedade artificial e morta (sem natureza).

  NATUREZA  SOCIEDADE
OBJETIVIDADE TRANSCENDENTE  IMANENTE
SUBJETIVIDADE  IMANENTE  TRANSCENDENTE

A separação total entre Natureza e Sociedade não explica nada, ao contrário, ambas as esferas (tomadas como sistemas abertos irredutíveis) é que precisam ser explicadas a partir de seus produtos híbridos. Para Latour, a constituição moderna ostenta um trabalho de purificação (separação do natural do social) mas esconde um trabalho de mediação (unificação dos pólos na produção de híbridos). Assim, bastará oficializar a produção de híbridos através de algumas emendas constitucionais para nunca termos sido modernos, nem ocidentais ou mesmo singulares em relação a outros coletivos.

Aliás, a própria idéia de revolução, de rompimento absoluto com um passado ultrapassado, é, para Latour, uma ilusão moderna: a Natureza está no passado e a Sociedade, no futuro. No presente, a cultura moderna depende da continuidade do tempo histórico e de cortes epistemológicos a que estruturem como algo diferente. O mundo é feito de ‘coletivos’, híbridos de natureza e sociedade, e a única diferença entre eles é de tamanho. Para ele, “é a seleção que faz o tempo e não o tempo que faz a seleção”. Infelizmente, a questão da modernidade não é tão simples. Mesmo que nos coloquemos no paradigma da descontinuidade absoluta, nunca haverá uma indiferenciação cultural capaz de esconder a singularidade histórica do ocidente diante de outros povos. Por isso, para não ser moderno, também é preciso negar a herança cultural judaico-cristã e a própria noção de civilização ocidental. Mas é a singularização de uma cultura em relação ao conjunto planetário é que permite sua hegemonia sobre outras.

É possível distinguir as leis naturais das convenções sociais? Não. Natureza e Sociedade são pólos de uma única Cultura. E conservar as luzes sem a modernidade, é possível? Sim. Como? Através de universais relativos, agenciamentos em redes e da ‘delegação’, uma transcendência sem oposto ou devir. Neste raciocínio, Natureza e Sociedade são imanentes no trabalho de mediação e transcendentes no trabalho de purificação.

  GLOBAL  
NATURAL  AS REDES  SOCIAL
  LOCAL  

Assim, para Latour, os modernos alimentam um estranho gosto pela marginalidade: ou são objetivos, ou subjetivos; ou locais, ou universais. “A defesa da marginalidade supõe a existência de um centro autoritário”. Para nós, esta opção quer desmistificar a idéia de um centro sagrado (e não de ocultação dos híbridos) e de ver o mundo diabolicamente, do lado de fora. É por isso que enfatizamos a unidade do conjunto das redes, o ciberespaço; e não as redes enquanto estruturas rizomáticas. Longe de nós, no entanto, a intenção de afirmar que essa unidade noosférica sempre existiu na forma de uma ‘alma do mundo’ medieval ou do inconsciente coletivo junguiano. Aliás, o Cibionta não é um leviatã digital. Ao contrário: a existência material de uma memória arcaica biotecnológica só foi possível através de uma ruptura histórica com a noção de pacto social, desse consenso anti-natural, que caracteriza a modernidade. Vejamos agora como foi essa ruptura.

  • CONTRACULTURA

Rupturas históricas não são “cortes epistemológicos”. Não se trata por tanto de fronteiras nem de territórios. Ao contrário: é justamente a desterritorialização das culturas, a mudança do homem diante de seu meio ambiente, promovido parcialmente pela re-evolução contracultural, que funda o Ciberespaço. Para Edgar Morin (2), a Contracultura é uma mudança antropológica de três crises interdependentes: a Crise Feminina (ou o fim do patriarcalismo), a Crise Juvenil e a Crise Ecológica. Essas três crise, vistas em conjunto, modificaram sensivelmente todas culturas do planeta.

Com a crise feminina, descobriu-se que para alterar a forma predatória pela qual o ser humano explora a natureza, não bastará extinguir a exploração do homem pelo homem como ressaltavam os marxistas, mas também a exploração do homem sobre as mulheres. E esta associação entre o feminino e a natureza no campo político é uma das características culturais da pós-modernidade que mais seria preciso acentuar. No paradigma patriarcal, o discurso feminino estava sempre ligado à necessidade, à terra, à explicação; enquanto o masculino reconhecia-se no sonho, nos céus e no planejamento do futuro. Talvez por isso, o materialismo tenha sido tão invocado pelos dominados e os mitos vezes sido considerados ideologia dos dominantes – porque essas funções discursivas da linguagem enraizavam-se no modelo arcaico da dominação ao nível das relações de gênero. Dessa forma, esta primeira crise, que acontece ao nível dos códigos de parentesco, da ‘troca de mulheres’, ativa uma segunda instância a nível da produção de
linguagem e dos códigos culturais: a ‘juvenilização’.

Com a crise juvenil, os valores da juventude, antes reprimidos como irresponsabilidade e rebeldia tornaram-se paradigmáticos sobre múltiplos aspectos. A revolta contra as instituições e a metalinguagem transformam-se em modelos universais de comportamento. Não se trata apenas de uma ética da desobediência civil ou de uma geração de viciados em sexo, drogas e rock and roll, mas também de um culto ao corpo e a saúde e do esoterismo apocalíptico da Nova Era. Nos dois casos, a juvenilização marca uma vitória da cultura de massas contra as resistências populares e eruditas.

Da mesma forma que a crise feminina apontava para uma mudança nas relações sociais de parentesco e a crise juvenil para uma renovação da linguagem e dos códigos semióticos e lingüísticos, a crise ecológica é econômica pois a marca a mudança do valor uniforme-serial pela noção de biodiversidade, da des-industrialização dos países ricos e a administração do consumo mundial. Este processo de globalização da economia não só leva às estratégias de exclusão tecnológica como novas formas de controle, mas também abre a possibilidade de uma cultura planetária e de um novo paradigma cognitivo: a comunicação de cada um com todos.

Cenário Moderno (l922/1968)  Contracultura (l968/1972)  Cenário Contemporâneo 
Cultura Popular – Regionalismo e resistência artesanal à industrialização  Crise Feminina – 
Será o fim do Patriarcalismo? 
Globalização – 
A desindustrialização dos ricos e a exclusão tecnológica 
Cultura de Elite – Sofisticação formal, a técnica como virtuose  Crise Juvenil – Sexo, drogas & rock’roll  Pós-modernidade – A administração do consumo 
Cultura de Massas – A reprodutividade técnica e  industrialização cultural  Crise Ecológica – A Biodiversidade e o Valor de troca Cibercultura – A comunicação de cada um com todos 

No Cenário Moderno, há três manifestações culturais distintas quanto ao público, a estética e a forma de produção: a cultura de massa, a cultura de elite e a cultura popular. A cultura de massas, é o produto da reprodutividade técnica e da industrialização cultural; a cultura popular, a expressão artesanal de diferentes resistências regionais à industrialização; e a cultura de elite, um culto à sofisticação formal e à hipersensibilidade, que crê na técnica apenas como habilidade e virtuose. Já no Cenário Contemporâneo, após o advento da Contracultura, encontramos no cenário contemporâneo uma cultura planetária estilhaçada em diferentes esferas ou bolhas-locais, onde a história se refrata e se fractaliza, segundo os interesses do consumo e do capital. A cultura de massas absorveu as culturas popular e de elite, eliminando quase todas resistências locais a sua supremacia global. Aliás, todas as resistências ao consumo massificado transformaram-se em mercados segmentados de consumo alternativo (diet, light, cult, etc) O slogan revolucionário ‘É proibido proibir’ virou anúncio de cigarros.

Três culturas (popular, elite e de massa) e três cenários (moderno, contraculutral e contemporâneo) geram três crises (Feminina, Juvenil e Ecológica) e resultam em três singularidades decisivas da atualidade: a globalização, a pósmodernidade e a cibercultura (ou sociedade de controle). E é aqui que a ‘reforma do pensamento’ defendida por Morin se encontra com as emendas constitucionais propostas por Latour.

Constituição moderna/Constituição não-moderna

1ª garantia: a natureza é transcendente, porém mobilizável (imanente). 1ª garantia: não separabilidade da produção comum das sociedades e das naturezas.
2ª garantia: a sociedade é imanente mas nos ultrapassa infinitamente (transcendente)  2ª garantia: a natureza é objetiva e a sociedade, livre há transcendência natural e imanência social sem que haja separações ou cortes 
3ª garantia: a natureza e a sociedade são totalmente distintas e o trabalho de purificação não está relacionado com o trabalho de mediação 3ª garantia: a liberdade é redefinida como uma capacidade de triagem das combinações híbridas que não dependem mais de um fluxo temporal homogêneo 
4ª garantia: o Deus suprimido está totalmente ausente, mas assegura a arbitragem entre os dois ramos do governo 4ª garantia: a produção de híbridos, ao tornar-se explícita e coletiva, vira objeto de uma democracia ampliada que regula ou reduz sua cadência 
  • CIBERCULTURA

Em um passado ainda recente, a memória arcaica do homem, concebida como uma unidade mítica das culturas, recebeu muitos nomes: ‘inconsciente coletivo’, ‘cérebro planetário’, ‘alma do mundo’, ‘noosfera”. O Ciberespaço, no entanto, não é (apenas) um espaço imaginário formado por sonhos, mitos e imagens do inconsciente, mas sobretudo uma realidade da qual não podemos ser excluídos. Em contrapartida, também não podemos excluir a idéia de um fundamento biológico da Inteligência Planetária, de uma memória arcaica anterior ao aparecimento das redes digitais globalizadas. O Ciberespaço é a fusão definitiva do biológico e do tecnológico, a simbiose completa entre o bicho e a máquina, ou, se preferirem, a ‘reunificação pós-moderna entre a Natureza e a Sociedade’.

O Ciberespaço é formado por redes e conexões, não apenas entre os pólos natural e social, mas, sobretudo, entre o ‘micro’, os contextos interpessoais localizados, e o ‘macro’, as generalizações impessoais. Menos universal e abstratas que os sistemas e menos concretas e circunstanciais que os fractais, as redes do Ciberespaço são também agenciamentos intermediários entre o local e o global. É como afirma Latour: “As redes são produtos do duplo trabalho de mediação (combinação simultânea dos dois pares de opostos) e de purificação (separação sistemática dos quatro pólos).”

Para os modernos: o que é verdadeiro é explicado pela Natureza e o que é falso é explicado pela Sociedade. Mas para a pesquisa do Ciberespaço não existem nem uma ‘ciência’ sem necessidades sociais nem muito menos uma ‘política’ objetivamente justa. a pesquisa do Ciberespaço rompe com este duplo artifício ‘moderno’ de simulação entre a Natureza e a Sociedade, em que o poder científico representa apenas as coisas e o poder político representa somente os homens.

Pierre Levy deve ser considerado um dos principais teóricos desta nova cultura virtual. Segundo esta concepção, a cultura não é apenas uma memória dos acontecimentos passados, mas também um projeto permanente de auto-organização para o futuro; não apenas um conjunto de marcas e registros, mas, sobretudo, um sonho coletivo irredutível ao desencanto científico, a próxima etapa possível de evolução da vida na sociedade humana planetária: a tecnodemocracia ou ecologia cognitiva. Para Levy, ecologia e solidariedade passam muito mais por um redimensionamento das desigualdades cognitivas que de uma redistribuição material das riquezas ou de uma reorganização das relações internacionais de força.

Inicialmente (3), sua reflexão pretende englobar a imagem, a escrita e o fenômeno da codificação da linguagem e do ruído como produtores de complexidade, distingue três ‘pólos tecnológicos da inteligência’: a Oralidade, a Escritura e a Telemática. O polo da Oralidade (Primária) é caracterizado pelo Mito e pela linguagem enraizada no corpo e pelo ‘eterno retorno’ de um tempo circular e cosmológico. O polo da Escrita marca a formas de armazenamento não biológicas de informação. Com a Escrita, surgirão a história e o projeto científico de organização sistemática do conhecimento. E o polo da Informática, em que as características dos dois pólos são contidas e transformadas.

  Oralidade  Escrita  Informática
Figuras  Círculos  Linhas  Pontos
Dinâmica temporal Eterno retorno História acúmulo de dados e informação  Velocidade múltipla e tempos simultâneos
Referente temporal de ação e  efeitos Imediatez sem registro Retardo, ato de diferir, inscrição no tempo  Tempo real = imediatez + memória externa
Relação Emissor Receptor Um único texto e contexto Distância e múltiplas interpretações possíveis  Um texto, muitos contextos; hipertexto
Distância do Indivíduo em relação à memória social Memória está encarnada em seres vivos e em grupos Memória não biológicas ou ‘objetivas’ – as marcas e os sinais Memória social em auto-organização permanente. As redes e o individual
Formas canônicas do saber  Analogias Narrativa Mitos  Rigor lógico Interpretação Simulação por  modelos
Critério principal Tradição, valores fixos Verdade objetiva Eficácia, pertinência  e mudanças

Os pólos, no entanto, não são simplesmente etapas ou eras cronológicas, mas sim modelos que se sobrepõem uns aos outros.

Em seus trabalhos mais recentes (4), para Levy, o ciberespaço é um estágio avançado de auto-organização social ainda em desenvolvimento (a inteligência coletiva), o Espaço do Saber, em que o conhecimento seria o fator determinante e a produção contínua de subjetividade seria a principal atividade econômica. Levy define ciberespaço como o quarto espaço antropológico, sobrepondo-se à Terra, ao Território e ao Mercado.

Os Territórios são virtualização da Terra; a Mercadoria é uma  virtualização dos Territórios; e o saber, uma virtualização das Mercadorias. O virtual é um produtor/produção da desterritorialização do espaço físico e da materialização do imaginário. Possivelmente ele começou com a escrita, com a possibilidade de uma informação transcender tempo e espaço. Assim, nesta segunda etapa de seu trabalho, ao invés de três pólos ou tecnologias, Levy vai falar de quatro espaços antropológicos (ou níveis históricos e simultâneos de virtualização): o aparecimento do vida sedentária, da agricultura, dos deuses solares, da escrita, do direito e das primeiras cidades é uma desterritorialização da vida nômade sobre a terra; da mesma forma, o surgimento das mercadorias (e da moeda) e do capitalismo será uma desterritorialização das sociedades que se organizam como estados-nações; e, consequentemente, o advento do Ciberespaço é uma virtualização do Mercado.

 Desta forma, nem tanto para rupturas históricas irreversíveis de Morin nem tanto para eterna mesmice humana de Latour, os espaços de levy sobreponhem-se uns aos outros e estamos vivendo em uma realidade nova (a cibercultura) intrinsecamente associada não só a modernidade e a lógica da mercadoria, mas também ao universo territorial do feudalismo e às tradições nômades.

  • ASSUMIR OS ERROS DO PASSADO
Natureza + Sociedade = Culturas Tradicionais Natureza X Sociedade = Cultura Moderna Natureza = Sociedade = Cibercultura

Pobres modernos! Prisioneiros da própria ilusão, forçados a sobreviver em mundo violento e sem sentido, jogados em um universo frio e sem alma, não passam de bolinhas de carne girando em uma bola de pedra em torno de uma grande bola de fogo. Que pobres e tolos que fomos! Nos acreditando superiores a todos os outros povos e culturas por adorar um deus morto e separar criteriosamente a Natureza (da qual detínhamos o domínio técnico) da Sociedade (que nos produz irreversivelmente limitados pelo consumo). Eis o destino moderno: ao tentar dominar a Natureza, foi escravizado pela Sociedade. Mas, deixemos de autocomiseração! Nem a civilização ocidental, nem nós, seus híbridos subdesenvolvidos das antigas colônias, merecemos tanta piedade. Afinal, até bem pouco partilhamos deste sonho insípido de destruição planetária: a modernidade.

Diante de uma constatação tão aterradora, a de nunca fomos culturalmente superiores, há quem prefira nunca ter sido moderno, como Latour, escapando assim da responsabilidade social e política em relação à agonia planetária e à situação dramática em que nos encontramos. O compromisso ecológico e a ética de solidariedade planetária são resultantes desta terrível constatação e da necessidade da reunião simbiótica do natural e do social em uma nova cultura: o Ciberespaço.

Ao defender a tese de que nunca fomos realmente modernos, Latour deseja lembrar que nada de fato mudou. Apenas acreditamos, por menos de 300 anos, que poderíamos separar as leis da natureza e nossa vida em sociedade, escondendo o caráter híbrido de nossa própria cultura. Mas, enquanto Latour crê que apenas com algumas reformas na constituição da modernidade serão suficientes para superar o divórcio entre Natureza e Sociedade, prefiro acreditar que houveram mudanças irreversíveis (a re-evolução contracultural iniciada nos anos 60), que os pólos estão definitivamente confundidos na Cibercultura e que é precisamos, todos nós, assumir os erros do passado: fomos modernos e agora devemos deixar de sê-los. Seduzidos pelo desencantamento diabólico do mundo, acreditamos na ciência e negamos o sonho e a imaginação! Fomos modernos, não há como negar.

Porém, resgatando o essencial do pensamento antropológico de Latour para o contexto teórico contemporâneo, o que poderíamos dizer sem medo é que sempre fomos ciborgs. Sempre utilizamos de artifícios diante do mundo, de ferramentas desnaturalizantes, de instrumentos e máquinas como extensões mecânicas do corpo. O homem se desnaturalizou através de seus apetrechos mas não há nada de ‘moderno’ ou de ‘ocidental’ nisso. Mas só agora, após a contracultura e a planetarização, é que assumimos nossa simbiose e nossa hibridez.

A chegada dos terminais inteligentes marcam o fim da era da memória local e o início do império do Ciberespaço, como memória de rede de homens e máquinas. Houve uma ruptura com cultura moderna, uma mudança estrutural nas formas de ‘dominação da natureza’ e da ‘exploração do homem-pelo-homem’, mas as práticas de dominação ambiental e a exploração humana ainda perduram. E nada nos garante que o ciberespaço (ou o ‘cibionta’ de Rosnay, a ‘inteligência coletiva’ de Levy ou essa nova representação ampliada às coisas proposta por Latour, o ‘parlamento das coisas’) nos levará a uma sociedade melhor ou se são apenas reformas parciais dos antigos modos de controle, um aperfeiçoamento simbiótico para dupla manipulação diabólica (social e natural) da modernidade.

Ecologia e solidariedade passam muito mais por um redimensionamento das desigualdades cognitivas que de uma redistribuição material das riquezas ou de uma reorganização das relações internacionais de força. A Cibercultura veio para ampliar a democracia cognitiva iniciada pela comunicação de massas e, ao mesmo tempo, também para reificar as relações de poder da sociedade de consumo. Por isso, nossa relação interativa com as novas formas de interatividade é que nos revelará se as novas tecnologias vão ser utilizadas para uma sociedade melhor ou se são somente mais um modo para manipulação social.


O HERMENEUTA INDEX PRÓXIMO CAPÍTULO

NOTAS(1) LATOUR, B. Jamais Fomos Modernos, ensaios de antropologia simétrica. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.

(2) MORIN, E. Cultura de Massas II – O Espírito dos Tempos (Necrose). Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 1977.

(3) LEVY, P. Tecnologias da Inteligência – o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

(4)  LEVY, P. A Inteligência Coletiva – por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.

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